← Voltar aos conteúdosAutocuidado e comportamento

Cuidar de si também é uma escolha

Autocuidado não precisa começar com uma rotina perfeita. Muitas vezes, ele começa quando você presta atenção em como está vivendo, reconhece o que precisa de cuidado e passa a tomar decisões mais coerentes com a vida que quer construir.

Por Thales Rosa · Nutricionista e profissional de Educação Física
Caderno, café e café da manhã em uma rotina tranquila de autocuidado
Foto: Mengkol Smile / Unsplash

Talvez cuidar da saúde não comece necessariamente em uma dieta, em uma planilha de treino ou em uma rotina perfeitamente organizada. Antes disso, existe uma decisão mais básica e, ao mesmo tempo, mais importante: prestar atenção em si mesmo, perceber como você está e reconhecer o que precisa de mais cuidado naquele momento.

É muito comum que o autocuidado seja tratado como algo que pode esperar. A gente costuma imaginar que vai voltar a cuidar melhor da alimentação quando o trabalho diminuir, que vai retomar os treinos quando a agenda estiver mais tranquila ou que vai descansar melhor quando aquela fase mais cansativa passar. O problema é que a vida raramente entrega um momento totalmente calmo e, quando o cuidado consigo mesmo depende desse cenário ideal, ele acaba sendo adiado por muito mais tempo do que deveria.

Talvez por isso faça mais sentido pensar em autocuidado como uma escolha que precisa caber dentro da vida real. Não como uma obrigação rígida, mas como uma forma de se manter minimamente presente para si mesmo, mesmo quando existem muitas outras coisas disputando atenção.

Estar bem consigo também muda a forma como você está no mundo

Existe uma ideia importante por trás disso. Quando alguém cuida da própria saúde, esse cuidado não fica restrito ao corpo. Ele influencia a forma como essa pessoa pensa, trabalha, se relaciona e responde às demandas do dia a dia.

Dormir melhor, se alimentar de forma mais adequada, se movimentar com regularidade e cuidar da saúde mental não são hábitos isolados. Todos eles participam da maneira como a pessoa consegue estar presente na própria vida. Isso não significa que alguém precise estar bem o tempo todo para conseguir contribuir com o mundo, nem que só possa cuidar dos outros quando tudo estiver resolvido internamente. A vida não funciona dessa forma. O que muda é que, quando existe algum cuidado com a própria base, costuma haver mais espaço para presença, energia, paciência e disponibilidade emocional.

Por isso, cuidar de si não precisa ser entendido como egoísmo. Em muitos casos, é justamente o contrário. É uma forma de criar condições para estar melhor consigo e, a partir daí, conseguir compartilhar com os outros uma versão mais inteira de si mesmo.

Nem sempre a dificuldade é falta de disciplina

Quando uma pessoa não consegue manter uma rotina de alimentação, exercício ou sono, é muito fácil atribuir isso à falta de força de vontade. Só que o comportamento humano é bem mais complexo. Planejamento, atenção, memória de trabalho, controle de impulsos e flexibilidade cognitiva dependem de funções executivas que podem ser prejudicadas por fatores como estresse e sobrecarga. Uma revisão sobre o funcionamento do córtex pré-frontal mostra que o estresse crônico pode comprometer justamente processos importantes para o comportamento dirigido a objetivos.[1]

Isso ajuda a explicar por que, em alguns momentos, alguém sabe exatamente o que deveria fazer e ainda assim encontra dificuldade para colocar aquilo em prática. Não é necessariamente falta de conhecimento e nem sempre é falta de interesse. Muitas vezes, existe apenas uma distância maior entre saber o que seria importante e conseguir executar aquilo no contexto que a pessoa está vivendo.

Entender isso não significa abrir mão da responsabilidade sobre as próprias escolhas. Pelo contrário, significa criar estratégias mais realistas. Em vez de responder à dificuldade com mais cobrança, pode ser mais útil olhar para a própria rotina e pensar no que é possível fazer agora.

Autocuidado também passa por tomar as próprias decisões

Talvez esse seja um dos pontos mais importantes de qualquer processo de saúde. Nutricionistas, médicos, psicólogos, treinadores e outros profissionais podem orientar, organizar estratégias e oferecer ferramentas, mas nenhuma dessas coisas substitui as decisões que acontecem no cotidiano.

A ciência da motivação ajuda a explicar por que isso importa. Estudos baseados na Teoria da Autodeterminação mostram que comportamentos de saúde tendem a ser mais sustentáveis quando a pessoa percebe autonomia, competência e razões pessoais para mantê-los. Uma meta-análise de ensaios clínicos encontrou efeitos positivos, embora modestos, de intervenções baseadas nessa teoria sobre diferentes comportamentos de saúde, com participação relevante da motivação autônoma e da percepção de competência.[2]

Em outras palavras, orientação profissional pode ser extremamente útil, mas o processo ganha força quando a pessoa entende por que está fazendo determinada escolha e consegue participar dela. Cuidar da saúde também significa desenvolver a capacidade de perceber necessidades e tomar decisões coerentes com elas.

Em alguns momentos, essa decisão pode ser treinar. Em outros, pode ser descansar. Pode ser organizar melhor uma refeição, dormir mais cedo, pedir ajuda, reduzir compromissos ou simplesmente reconhecer que alguma coisa não está funcionando bem e precisa ser revista.

A alimentação deveria ajudar a vida, não ocupar toda ela

Cuidar da alimentação não significa comer perfeitamente e também não significa pensar em comida o tempo inteiro. Uma alimentação saudável precisa fazer sentido dentro da rotina e contribuir para a vida da pessoa, não disputar espaço com ela.

Isso envolve qualidade nutricional, mas também envolve prazer, cultura, praticidade, relações sociais e flexibilidade. Quando a alimentação passa a ser guiada apenas por culpa, compensação ou medo, o que deveria ser autocuidado pode rapidamente virar mais uma fonte de ansiedade. Por outro lado, quando a pessoa consegue construir uma relação mais equilibrada com a comida, a alimentação deixa de ser um teste constante de disciplina e passa a cumprir melhor o seu papel.

Uma estratégia útil para transformar intenção em ação é tornar a decisão mais concreta. Em uma revisão sistemática e meta-análise sobre alimentação saudável, os chamados planos de implementação, que especificam quando e como um comportamento será realizado, mostraram efeito positivo principalmente para aumentar escolhas saudáveis.[3] Na prática, isso significa que “vou comer melhor” costuma ser menos executável do que “amanhã vou incluir uma fruta no café da manhã”.

Movimento também pode ser cuidado, e não punição

Algo parecido acontece com a atividade física. Durante muito tempo, exercício foi apresentado quase exclusivamente como uma ferramenta para emagrecer, gastar calorias ou corrigir excessos. Essa visão costuma empobrecer bastante o papel que o movimento pode ter na vida.

Se movimentar também pode significar sentir o corpo funcionando melhor, perceber força, aliviar tensão, melhorar disposição e criar momentos de presença. Para algumas pessoas, isso acontece na academia. Para outras, em uma caminhada, numa aula, numa corrida ou em alguma atividade que traga prazer.

Uma revisão sistemática com dezenas de estudos sobre atividade física mostrou que formas mais autônomas de motivação, especialmente quando a pessoa percebe valor pessoal ou prazer na atividade, aparecem de forma consistente associadas à participação e à manutenção do exercício.[4] Isso não significa que toda sessão precise ser prazerosa, mas reforça a ideia de que uma rotina construída apenas por culpa ou obrigação tende a ser mais difícil de sustentar.

Cuidar da mente faz parte da mesma construção

Existe ainda uma parte do autocuidado que nem sempre é visível. É fácil perceber quando alguém começa a treinar ou muda a alimentação, mas muito do cuidado com a saúde acontece em lugares que não aparecem.

Aprender a reconhecer limites, diminuir a autocobrança, pedir ajuda quando necessário, cuidar das relações, respeitar períodos de descanso e buscar acompanhamento psicológico quando isso faz sentido também fazem parte dessa construção.

Há evidências de que uma postura mais compassiva consigo mesmo se relaciona positivamente com comportamentos promotores de saúde. Uma meta-análise que reuniu 94 estudos encontrou associação entre autocompaixão, saúde física e comportamentos de cuidado com a saúde, além de resultados favoráveis em intervenções com mais de uma sessão.[5] Isso não quer dizer que ser gentil consigo substitua tratamento, planejamento ou responsabilidade. Significa que autocuidado e autocobrança excessiva não são sinônimos.

Por isso, talvez seja mais útil abandonar a ideia de que cuidamos separadamente do corpo e da mente. Na prática, estamos sempre cuidando da mesma pessoa.

Não precisa retomar tudo de uma vez

Quando alguém percebe que se afastou dos próprios cuidados, existe uma tendência de querer recuperar tudo imediatamente. Voltar para a academia várias vezes por semana, melhorar completamente a alimentação, ajustar o sono e reorganizar a rotina de uma vez só pode parecer a forma mais eficiente de recomeçar, mas muitas vezes cria uma exigência grande demais para ser sustentada.

Começar por mudanças menores pode ser uma estratégia mais realista. Uma caminhada curta, uma refeição melhor organizada, um pouco mais de água, um horário de sono ligeiramente mais regular ou simplesmente alguns minutos sem celular antes de dormir podem parecer pouco, mas ajudam a reconstruir a sensação de continuidade.

O ponto não é imaginar que uma ação isolada resolva tudo. O valor está em escolher algo possível de repetir. Quanto mais concreta e executável é uma decisão, menor tende a ser a distância entre intenção e comportamento.

Talvez disciplina tenha menos a ver com rigidez do que parece

Disciplina costuma ser associada a controle, cobrança e resistência, mas talvez ela possa ser entendida de outra maneira. Em vez de pensar em disciplina como a capacidade de fazer tudo certo todos os dias, pode ser mais útil pensar nela como a capacidade de continuar voltando para aquilo que faz bem.

Existem fases em que cuidar da saúde será mais fácil. Em outras, a pessoa terá menos energia, menos tempo e mais demandas, e a rotina precisa conseguir acompanhar essas mudanças. Em alguns momentos, será possível treinar várias vezes por semana e organizar todas as refeições. Em outros, o cuidado pode assumir uma forma muito mais simples, mas ainda assim importante.

O objetivo não deveria ser viver em um estado permanente de controle, e sim conseguir preservar alguma continuidade sem transformar uma fase difícil em abandono completo.

Cuidar de si também é uma forma de participar melhor da própria vida

No fim, autocuidado não deveria ser apenas um conjunto de hábitos saudáveis. Ele pode ser entendido como uma forma de construir uma relação mais consciente consigo mesmo. Isso inclui perceber o que faz bem, reconhecer o que precisa mudar, pedir ajuda quando necessário e assumir responsabilidade pelas decisões possíveis dentro de cada momento.

Quando essa relação se fortalece, alimentação, movimento e saúde mental deixam de ser tarefas independentes e passam a fazer parte de algo maior: a forma como a pessoa escolhe viver.

Cuidar de si não é se fechar para o mundo. É criar uma base para conseguir estar nele de forma mais presente e mais inteira. E quando alguém consegue fazer isso, existe uma chance maior de levar para as relações, para o trabalho e para tudo aquilo que constrói uma versão mais saudável de si mesmo, não porque esteja tudo perfeito, mas porque existe uma escolha consciente de não se abandonar.

Talvez o autocuidado comece exatamente aqui: na possibilidade de olhar para a própria vida com mais atenção e escolher, dentro do que é possível hoje, alguma coisa que ajude você a estar melhor consigo mesmo.

Thales Rosa

Nutricionista (CRN 8 18115) e profissional de Educação Física (CREF 019714). Atendimento em Curitiba e on-line.

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Referências

  1. Girotti M, Adler SM, Bulin SE, Fucich EA, Paredes D, Morilak DA. Prefrontal cortex executive processes affected by stress in health and disease. Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry. 2018;85, p. 161 a 179. DOI: 10.1016/j.pnpbp.2017.07.004. PMID: 28690203.
  2. Sheeran P, Wright CE, Avishai A, et al. Self-determination theory interventions for health behavior change: Meta-analysis and meta-analytic structural equation modeling of randomized controlled trials. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2020;88(8), p. 726 a 737. DOI: 10.1037/ccp0000501. PMID: 32437175.
  3. Adriaanse MA, Vinkers CDW, De Ridder DTD, Hox JJH, De Wit JBF. Do implementation intentions help to eat a healthy diet? A systematic review and meta-analysis of the empirical evidence. Appetite. 2011;56(1), p. 183 a 193. DOI: 10.1016/j.appet.2010.10.012. PMID: 21056605.
  4. Teixeira PJ, Carraça EV, Markland D, Silva MN, Ryan RM. Exercise, physical activity, and self-determination theory: a systematic review. International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity. 2012;9:78. DOI: 10.1186/1479-5868-9-78. PMID: 22726453.
  5. Phillips WJ, Hine DW. Self-compassion, physical health, and health behaviour: a meta-analysis. Health Psychology Review. 2021;15(1), p. 113 a 139. DOI: 10.1080/17437199.2019.1705872. PMID: 31842689.